Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
Frágeis intuições sobre o amor
Amamos antes de sabermos explicar como funciona o amor. Não há teoria suficiente que elucide os retratos da mãe debruçada sobre o berço, do reencontro de amigos separados há muito por uma guerra, do lamento do filho diante do túmulo da mãe. As cartas ridículas dos namorados valem por qualquer tratado sobre o amor.
Contudo, dá para rabiscar algumas ideias (incipientes e precárias, claro) sobre o amor. E a partir de três concepções: liberdade, excelência e personificação.
Liberdade
André Comte-Sponville diz que amor “não é dever, mas virtude… [já que] dever é uma coerção e virtude, uma liberdade”. Nietzsche afirma corretamente: “O que fazemos por amor sempre se consuma além do bem e do mal”. Para o amor não há lei. Sempre que amor nasce do dever se esgota na rejeição. A adolescente, forçada pelos pais a um relacionamento com a divindade, desentranha sua revolta honesta: “Odeio ter que amar a Deus”.
Não existe amor sem liberdade. Agostinho sintetizou bem: “Ama e faz o que quiseres”. Se o rei mantém um harém, o faz para ter sexo, somente. No dia em que precisar de afeto, por mais déspota que for, terá que cativar. Para ser correspondido no amor, jamais poderá se impor. Ou o rei se fragiliza como qualquer namorado enquanto espera que a amada responda ao seu aceno ou fica sozinho.
Excelência
O amor se desdobra como excelência. Padre Antônio Vieira narrou uma parábola mais ou menos assim: “Certo homem saiu para caçar antes do alvorecer. Ao longo do dia, tentou alvejar vários animais. Errou todos os dardos. Ruim de pontaria foi mal sucedido em abater um bicho que alimentasse a família. Triste, voltou para casa no crepúsculo. A poucos metros da porta da choupana, deparou-se com uma cena desesperadora. Uma cobra se enrolava no pescoço do filho. Sem hesitar, o caçador retesou o arco e mirou a flecha. A cabeça da serpente estava perigosamente próxima do filho. Desta vez, acertou em cheio. E salvou a vida do filho. O que fez o pai para atingir a cabeça da áspide, se era péssimo caçador, ruim de pontaria? Como o homem se fez exímio no arco e flecha?”. O próprio jesuíta responde: “O amor”. A vida do filho corria risco.
O amor cria especialistas. Excelência nasce do afeto. As pessoas se tornam criteriosas por conta do seu bem querer. Quem ama não aceita a lógica do “de qualquer jeito” – aliás, detesta “jeitinho”. No carinho reside a meticulosidade. Cuidado refina atitudes. Os amantes não se importam em caminhar milhas extras. Quem aprecia transforma decisões banais em imperativos. Esmero e amor se irmanam.
Personalização
O amor descarta ideações. Não se contenta em sobreviver no mundo das ideias. Amor precisa se encarnar. Paixões platônicas ou virtuais se extinguem, morrem de inanição. Unamuno avaliou que o amor na relação com Deus sai do mundo da perfeição para realizar-se no real: “O amor personaliza tudo aquilo que ama. Só nos podemos enamorar de uma ideia, personificando-a. E quando o amor é tão grande e vivo, tão forte e transbordante que tudo ama, então tudo ele personifica, e descobre que o todo total, que o Universo é também Pessoa que tem Consciência, Consciência que por sua vez, sofre, se compadece e ama, como quem diz – é consciência. E esta Consciência do Universo, que o amor descobre personificando tudo aquilo que ama, é o que nós chamamos Deus. E assim a alma compadece-se de Deus, e sente que ele se compadece por seu lado, ama-o e sente-se amado por ele, abrigando a sua miséria no seio da miséria eterna e infinita, que é, pela sua eternidade e infinidade, a suprema felicidade.
Deus é, pois, a personificação do Todo, é a Consciência eterna e infinita do Universo, Consciência presa da matéria, e esforçando-se para se libertar dela. Personalizamos o Todo, para nos salvarmos do nada…”
“… pois o amor é tão forte quanto a morte… Nem muitas águas conseguem apagar o amor; os rios não conseguem levá-lo na correnteza. Se alguém oferecesse todas as riquezas de sua casa para adquirir o amor, seria totalmente desprezado” [Cântico dos cânticos, 8.6-7].
Sábado, 28 de Abril de 2012
Café com pão
São 7h45 da manhã de sábado. Estou numa casa de fazer pão, sentado à mesa, olho fixo para minha caderneta, enquanto aguardo o café. Minha mente desaloja minhas memórias. Jesus ensina-nos uma grande tarefa. Ou melhor, propõe um desafio. Avaliando os tempos conturbados em que vivemos. A pressão é enorme. Mas nos consolamos com o ensino de que Deus tem o seu tempo.
Preparar alguém para a vida não se faz com palavras, mas convivendo. Isto é fato. “Caçar aves com espelhos é uma verdadeira armadilha”. BALTAZAR, 1998[1]. Ou seja, sobram palavras, falta-nos abraços. Nesse sentido, não se vive apenas de cortesia. Desse modo, criar um espaço de afetos no cotidiano frenético, torna-se um desafio para nós. Afinal “O tempo é como uma flecha lançada, não volta atrás”.
Durante o ano de 2011 foi-nos concedido, apesar das eventuais “falhas” no terreno, o chão de nossa existência – o solo firme – gerou muita gente bonita, “… que procura encorajar uns aos outros, ainda mais quando vocês veem que se aproxima o Dia”. (Hebreus 10: 25). (Grifo meu) À Betesda longe de ser perfeita, a despeito dos gêneros, razão de não deixar passar incólume seus erros. A verdade é que, em quase tudo, é necessário se fazer uma distinção. Honestamente, tomo um banho de modéstia, ela tem seu encanto. É no final de cada jornada da vida que vemos a diferença que faz a diferença.
Só pra lembrar: há poucos dias recebemos filhos pródigos. Adotamos filhos do amor juvenil em Cristo Jesus, com imensa responsabilidade, para nossa felicidade. Abrolharam filhos da puberdade que assumiram compromissos e, corajosamente, servem às mesas. Ainda estamos esperando novos bebês! “São nossos melhores tesouros.” Portanto, não foi muito difícil me envolver com seu amor.
John Donne, pastor e poeta, escreveu certa vez:
“Nenhum homem é uma ilha completa em si mesma: cada homem é uma parte do continente, um pedaço do todo”. Apesar de Donne estar se referindo ao fato de a morte de cada pessoa representar uma perda para todas as outras, sua declaração também anuncia um princípio para o ministério: ninguém exerce o ministério sozinho. Todos ministram em conjunto com todos” (CARTER, 2010) [2]
Amigos, o café delicioso chegou! Fumegante! E cá estou pensando nas razões pelas quais insisto em tomar café do lado de dentro. Ora, estou feliz porque olho para dentro da igreja e enxergo Deus em ação na vida das pessoas que amo. Desse modo, percebo que minha igreja pertence a Deus independente de quem esteja à frente. Enfim, por outro lado, o café é o melhor que já tomei.
Um forte abraço!
Chagas
Segunda-feira, 23 de Abril de 2012
Há 18 anos faço parte desta família.
Pensando bem, acho que seria metade do que sou hoje se não tivesse tido aquele primeiro encontro em julho de 1994. Alguns dos nossos jovens atuais nem haviam nascido ainda e Deus naquele momento estava me gerando para a verdadeira vida. Sim, era necessário que eu nascesse de novo, e tive a honra de que o parto tenha ocorrido na maternidade Betesda do Conjunto Ceará. Em todo esse tempo, TENHO MUITO PARA CONTAR:
Participei de viagens missionárias, onde vi coisas extraordinárias acontecerem; estive em projetos de ações sociais, como a Arrancada 97 que se eternizou na vida de quem participou e na história da nossa igreja; Vi e ouvi em nossos púlpitos a narrativa de feitos extraordinários (milagres) na vida de muitos; tive o privilégio de ser pastoreado por todos os pastores que por cá passaram, alguns são memoráveis em minha história. Fui, pasmem vocês, um dos “melhores” baxistas que a igreja já teve (o Cozé me admirava sabia, rs?!); toquei guitarra, violão e até teclado (nunca me arrisquei a cantar com medo de ovos e tomates); fui aluno e professor de escola bíblica; membro de grupo de teatro; líder de jovens por cinco anos consecutivos; Nessa casa, ouvi mensagens poderosas de gente simples e de ¨grandes¨ também; mesmo com dificuldade de dicção, recebi oportunidade e arrisquei-me a pregar sermões; fiz visitas a enfermos e vi que alguns deles enquanto padeciam na saúde física, se agigantavam na saúde espiritual e isso alimentou a minha fé (saudades Claudia, Davina, Ir. Rodrigues e outros); participei de EJC’s, fiz ONE para noivar e MMI quando casei; participei de evangelismos na favela com uma jovem magricela de 11 anos, aos seus 19 anos fomos ao cinema e aos 21 ela me fez tomar a maior decisão da minha vida, eu a disse SIM; vi o templo velho em ruínas cair para dar lugar ao novo que existe hoje, na verdade, ajudei a derribar e a levantar o prédio, com dízimos, ofertas e trabalho; Depois de algum tempo incorporei a junta diagonal, aprovado para o título, e junto com alguns amigos de fé recebemos o óleo da unção sob as mãos estendidas da congregação; Nesta comunidade apaixonei-me por o projeto de PGs (pequenos grupos) que para mim é a forma mais espetacular para se viver o cristianismo; Fiz, ao longo destes anos amigos que são mais achegados do que irmãos, quando me vi em vales de sombras de morte, me percebi nos braços de Deus, ao ergue os olhos reconheci a face deles no corpo de Deus que me sustentava; Ao nascer de novo, ganhei nova vida, novos irmãos e irmãs e principalmente uma outra família.
Deus seja louvado por ti e através de ti Betesda.
Marcílio Robson
#tenhomuitopracontar
Terça-feira, 17 de Abril de 2012
Outra espiritualidade possível
Como a cigarra que só deixou uma casca, chegou a hora de algumas instituições religiosas se verem mero registro histórico de boas intenções. E deixem suas suntuosas catedrais como recordação da religião imponente, guerreira, voluntariosa, que um dia foram.
Passou o tempo da religião especializada em doutrinar. Ficou para trás o sistema obcecado por pensamentos lineares; intransigente nas leituras literais; inflexível nos pressupostos. O projeto de incutir salvação como anuência acabou. Aprender o catecismo para ser considerado um discípulo mostrou-se incapaz de promover um bem social. A religião que privilegiou o individualismo se esvaziou. O bem coletivo nasce do diálogo, da abertura para o diferente, nunca de decorebas. Para ressurgir, o movimento, que se pretendia evangélico, deve abandonar sua casca dogmática e legalista – que teve pertinência, mas hoje exige a alma de muitos.
No desmonte desse esqueleto religioso, é preciso denunciar também o eleicionismo teológico. Nada mais patético do que considerar-se preferido entre bilhões. Saber-se eleito significa acreditar que em alguma época passada, numa eternidade remotíssima, Deus distinguiu alguns e preteriu a maioria. Indica afirmar que os benefícios divinos foram seletivamente distribuídos – sem que se saiba por quais critérios. Essa convicção só pode gerar uma segurança ilusória – que não só enche de empáfia, como ajuda a distanciar o punhado sortudo do drama que os demais sofrem. Vaidade espiritual vem daí.
Há de repensar-se a função do sacerdote. Não pode existir uma elite representante de Deus. Como aceitar que o acesso ao Divino seja complicado ao ponto de exigir burocratas? Peritos, especialistas em divindade, não passam de sicofantas – carreiristas, alpinistas amarrados ao sagrado.
Espiritualidade não se reduz à técnica; ela prescinde de traquejos. Um “Deus que funciona” não passa de um autômato. As relações com ele não dependem de se aprender o jeito de fazê-lo responder a estímulos corretos. O clericalismo, detentor dos mistérios da divindade, abriu a porteira do estrelismo. E religião que reforça vedetismo, robustece ego e desmerece a simplicidade, não é digna de ser chamada “seguimento de Jesus”. Na mensagem do Nazareno, benignidade triunfa sobre teoria e a busca da justiça se concretiza em ações transformadoras.
Longe da mentalidade gerencial, outra espiritualidade florescerá nas fissuras das estradas de terra. Ali, na poeira do dia a dia, virtude desprezará gestos ocasionais para grudar na pele de pessoas comuns.
O percurso que separa o cristianismo da cristoformidade parece longo e difícil. Todavia, não vai demorar os seguidores de Jesus aprenderem que: “Religião de verdade, que agrada a Deus, o Pai, é esta: cuidem dos necessitados e desamparados que sofrem e não entrem no esquema de corrupção do mundo”. [Tiago 1.27]
Soli Deo Gloria
Segunda-feira, 9 de Abril de 2012
Tenho algo pra contar!
Esses últimos dias ando preocupada com alguns problemas pessoais. Quem não os tem? A Saúde dos meus queridos pais é algo que me desestabiliza, as dificuldades de tias e primas acabam sendo minhas também, enfim, são tantos motivos que não posso citá-los agora.
Devido a essas preocupações e outras, percebi que devo selecionar os assuntos com os quais devo dedicar meu tempo. Acreditem, isso acaba sendo um exercício para mim, pois quem me conhece sabe que não sou de ficar calada diante de certas situações, ainda mais quando tenho argumentos irrefutáveis para defender o que penso. Porém obedecendo a um conselho pastoral: “Gaste suas energias com algo que faça diferença benéfica para o Reino de Deus”. E mesmo em meio a tantas preocupações, refleti sobre o momento em que vivo dentro da minha comunidade.
Estamos completando 20 anos: lembro-me como se fosse hoje o dia da fundação num pequeno colégio infantil. Eu era apenas uma menina de 10 anos de idade. Mas recordo das reuniões familiares antes dela se tornar Congregação. Depois a compra do terreno, o primeiro culto no chão batido - onde as formigas atrapalhavam nossa concentração. Em seguida a compra da casa ao lado. A reforma do templo, etc. Nossos congressos de jovens, viagens missionárias, retiros, etc. Nossa como é bom lembrar tudo isso!
A Betesda faz parte da história da minha vida e sei o quanto faço parte da sua também. Quem me acompanhou durante todo esse tempo, pode constatar: o Paulo Henrique, (meu amigo melhor do que um irmão) que na época era uma criança e em breve será papai! Caminhamos juntos e tive a honra de tê-lo ao meu lado na consagração para diáconos. Fiz parte do Ministério infantil, sendo ensinada pela Tia Teresa, Duarte, Claúdia e Aldenora. Depois do Min. de Adolescentes e Jovens, fui auxiliar do líder de jovens durante 4 anos. Fui líder do Min. Louvor durante 3 anos, em seguida Coordenadora de Pequenos Grupos.
Hoje, sou Diaconisa, reafirmando meu serviço. Mas confesso, não fui eu que servi ao Senhor através da Betesda. Foi o Senhor que me abençoou por meio dela todo esse tempo. Porque quando olho para traz e vejo quantas pessoas já foram também abençoadas através dessa ferramenta de Deus que á Betesda, meu coração se enche de orgulho e alegria.
Então, deixem-me compartilhar o que contemplei esses dias:
· O Grupo de louvor crescendo e amadurecendo, não só pelas belíssimas cantatas que realizamos (modéstia à parte), mas em cada ensaio, cada encontro, saio revigorada, com nossa união e crescimento. Além da capacitação dos membros.
· A JUBE, com seus departamentos tem mostrado a força do jovem.
O TEATRO nos surpreendendo a cada apresentação. E de maneira dedicada domingo após domingo ensaiando para dar o melhor de si.
O COBE, encantando com suas coreográficas e criatividade, mantendo compromisso em cada ensaio sistematicamente.
O LOUVOR descobrindo novos talentos e se esmerando nas consagrações.
· O Min. Feminino que tem inovado constantemente com seus encontros e palestras enriquecedoras.
· Vi fotos recentes de um jantar dos CASAIS e fiquei com uma “inveja santa” por ter me privado daquele momento por conta dos estudos. Mas ouvi declarações de que foi maravilhoso.
· O Min. Infantil cuidando e orientando as crianças o caminho que devem andar.
· A Escola Bíblica que tem sido excelente ferramenta para o conhecimento das escrituras.
· O Instituto Crer&Ser que tem sido relevante no meio da comunidade da região ribeirinha, dando assistência às crianças carentes daquele lugar.
· O Vida Nova, que semana após semana acompanha, e de maneira terapêutica cuida de pessoas, jovens e adultos, que lutam contra o vicio das drogas e do álcool. Sábado quando olhei para 03 jovens que chegaram à minha casa depois da reunião do Vida Nova, meu coração se encheu de alegria em me perceber parte deste milagre.
· Os PEQUENOS GRUPOS. Ah esse é meu chamego. Um ministério que tem nos permitido crescer em comunhão com nossos irmãos, à medida que nos permite ter mais proximidade, compartilhando vida, tristezas, alegrias, sonhos, etc. Tive o privilégio de participar dos sonhos de muitos irmãos do grupo. Quantas pessoas vi realizando sonhos dentro desses grupos!? E não realizaram sozinhas, todos se reuniam para ajudar: aniversários, casamentos realizados, percebemos a realidade da palavra “família”.
· COMUNICAÇÃO, ainda nos primeiros passos, mas já fazendo a diferença, na rede social, boletins (Farol), cartazes, projetor e mídia.
Acompanhei pessoas doentes; em fase terminal de câncer, sendo auxiliadas dentro de suas casas pelas mulheres; jovens em período de abstinência sendo trazidos, com amor, de volta aos braços do pai. O provimento às famílias que passavam por dificuldades financeiras. O Cuidado e pastoreio com pessoas que passaram por problemas emocionais, casamentos, conflitos sentimentais.
Queridos, o quanto nesses 20 anos a Betesda tem feito à excelente diferença em minha vida. E na vida de muitos que por ela passaram. Glória a Deus por tudo isso!
Claro que não desconsidero as falhas que existem. Ora, afinal de contas somos feitos de gente. Porém quando penso no que mencionei acima, não há espaço no meu coração para tristeza e queixas. E sim de muita alegria e ORGULHO de fazer parte dessa família.
ESTAMOS EM FESTA, EBENÉZER!
Sim, tenho muito para contar. Vivendo em família.
#betesdaminhaigreja.
Elenice Batista Pereira Farias.
Segunda-feira, 5 de Março de 2012
Angústia é ganho
Nascemos entre a bigorna e o martelo. A noção de perigo nos acompanha pela vida e não demoramos perceber: somos mortais. De repente, damos conta: o oceano onde nadamos não tem porto. Sabedores do fim, cansados de nadar contra a maré, provamos um fel chamado angústia.
Não há como fugir, é o medo existencial que faz nascer a angústia. Dela vem o choro que nunca desengasga. A angústia é mãe de pequenos surtos depressivos – que jamais entristecem totalmente. Angústia dói em todas as línguas. E lateja feito dor de dente.
A vida não se deixa domesticar. Não há unguento que cure o sofrimento de existir. E depois de toda obra e toda aventura, sobra a única certeza: a guilhotina descerá no pescoço de todos.
Não se extirpa a angústia dos ossos, da pele, do coração. Não existe antídoto para sua peçonha. André Comte-Sponville afirmou que “somos fracos no mundo, e mortais na vida. Expostos a todos os medos. Um corpo para as feridas, ou para as doenças, uma alma para as mágoas, e ambos prometidos à morte somente… Ficaríamos angustiados por menos”.
A angústia nunca se deixa descobrir. É assintomática. Oxigênio algum resolve quando falta fôlego na alma. Inexistem saídas. Tudo termina em tragédia. Fernando Pessoa constatou sobrarem pratos na mesa. Era dia do seu aniversário e, triste, disse ser “sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio….”.
Todos vestirão luto um dia.
Pascal comparou o sentimento de angústia a homens acorrentados: “Todos condenados à morte, sendo todos os dias uns deles degolados à vista dos outros. Aqueles que restam veem sua própria condição naquela de seus semelhantes, e, olhando-se uns aos outros com dor e sem esperança, esperam sua vez”. No seu pessimismo, resta enlouquecer ou “ se divertir”. Numa equação shakespeariana: fuga ou loucura, eis a questão.
A modernidade tecnológica também se apropriou do jargão antigo:“Consumamos, consumamos, porque amanhã morreremos”. Nenhum país incorporou tanto essa ideia quanto os Estados Unidos. Lá virou o paraíso do consumo, a nova Roma para onde bárbaros desejam emigrar. Na América, rodam duas vezes mais automóveis per capita que o restante da humanidade. Gasta-se mais energia com ar condicionado que toda a produção energética da China. O desembolso com sapatos tênis fica em torno de doze bilhões de dólares. Mas, o consumismo desenfreado atual deixa as pessoas mais contentes ou felizes do que em 1954? Brinquedos caros ou baratos são impotentes para tirar a vontade de chorar.
Onde está a fonte da juventude eterna? A humanidade conseguiu adiar o dia fatídico. Os avanços da medicina se tornaram espantosos. Com o culto ao corpo, países ricos refizeram padrões estéticos. A beleza atual é bem diferente da medieval. A expectativa de vida aumentou mais nos últimos quarenta anos do que nos 4.000 anos precedentes. Cresceu de 53 anos – incluindo os países mais miseráveis – em 1960 para 67 anos em 2005. Uma criança nascida hoje viverá em média 122 mil horas ou 5,83 mil dias a mais do que uma, nascida há quatro décadas.
Um desdobramento negativo desses avanços é que as pessoas foram condenadas a passar mais tempo convivendo com a realidade. A longevidade também faz crescer a angústia.
O mesmo soluço que afligiu filósofos gregos e salmistas judaicos soluça hoje. Mudaram os rótulos. Continuam as fobias do passado. O avanço da psicologia e o progresso da espiritualidade não desmentem que viver é um perigo. A força da angústia resiste a comprimidos e todas as alquimias.
Não sobram muitas escolhas. Jogados ao mundo, resta-nos aprender a viver.
O judeu itinerante, Jesus de Nazaré, falou coisas agradáveis, sem, contudo, evitar as antipáticas. Sua mensagem convidou homens e mulheres a considerarem a vida como rara e imprescindível. Ao referir-se à verdade, ensinou a necessidade de enfrentar a realidade. Ele deixou as pessoas decidirem se queriam ou não lidar com a angústia. Não receitou fórmulas fáceis de como desatar os nós da alma. Seguidores e ouvintes deviam aprender a usar a força negativa da angústia em favor da felicidade. E não basta um estado transitório – estar alegre, feliz. A vida é um convite a ser.
Jesus acreditou que viver é somar pequenas decisões; é juntar experiências boas e más na construção do ser. Fiel à tradição do Eclesiastes, ele viu que só encontramos algum sentido mínimo de existir ao somarmos choros e risos, desejos e realizações, frustrações e sonhos.
Ninguém precisa exorcizar a angústia, que, assumida, gera sede de transcendência. A vida carece também de um lado sombrio para ser eterna. Além do mais, a angústia garantiu a sobrevivência da espécie. Só os angustiados buscam companhia. A angústia fez com que os primeiros seres humanos desejassem viver em sociedade. Ao notarem que eram frágeis e iguais no sofrimento, deram as mãos.
O grito que se ouviu no Calvário – Eli, Eli, lamá sabactini?, “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” – tornou-se o grito de toda a humanidade. Os lábios de Cristo passaram a representar os negros que morreram em navios fétidos, as mulheres perseguidas na Inquisição, as crianças que se exauriram em trabalho escravo, os curdos que nunca tiveram pátria. O filho de Deus desentranhou a sua angústia, que ressoou pelos quatro cantos da terra, e passou a ser o grito de todos. Cravados com ele no madeiro da solidão, seguimos o seu exemplo e encaramos qualquer sina – Ele é autor e consumador da fé.
Soli Deo Gloria
Sábado, 28 de Janeiro de 2012
Esquecer Significados e Lembrar Possibilidades
De longe já dava para vê-lo sentado ao poço. Preferia que não estivesse lá, como nos outros dias. Venho aprendendo a escolher lugares e horas que me ajudem a ficar só. Aquele poço e sua distância de tudo e todos, aquela hora e seu sol a pino traziam menos desgaste que esbarrar naqueles, quaisquer que fossem, cujos olhares espelhassem o pior de mim.
A aproximação acrescentou um dissabor, não bastasse alguém atrapalhar minha solidão, agora ficava evidente que o homem perto do poço era um judeu. Os babados da sua roupa de bom judeu anunciavam um daqueles que se crêem puros a despeito de nossa impureza. Nada é mais opressor que se enxergar tão estranha e detestável nos olhos de quem quer que seja.
Ao poço, o inusitado mostrou a face. Antes que pudesse deixar nítida minha pressa e indiferença, pediu-me água. Eu sei que a cortesia mínima não rejeita água sequer ao inimigo, mas não soube disfarçar minha amargura. Neguei-lhe e lembrei-lhe o óbvio, era homem e eu, mulher; era judeu e eu, samaritana. Fronteiras fortes o suficiente para que nem a mais sofrida angústia licenciasse o encontro. Nenhum preconceito é tão cruel que não possa servir a uma doentia e útil comodidade.
Ainda assim não me livrei do peregrino. Insistiu, apesar da cara de fadiga e dos lábios ressecados, e advertiu-me de estar desperdiçando uma grande chance. Falou-me da água de um jeito estranho. Não tive certeza se tentava me propor um enigma, como fazem os mestres e profetas, ou se de fato conhecia alguma água com poderes mágicos. Mas ofereceu uma água viva que resolveria a sede de uma vez por todas. Fiquei confusa. Não estou acostumada a esses devaneios, coisas de poetas e profetas, ou insanos. Sempre ali, icei baldes de água que, além de mal saciar minha sede, traziam o enfado de um serviço que nunca finda. Aos meus olhos, balde é balde, água é água, e gente nunca faz muito mais que trazer transtornos.
E mesmo depois de interromper o palavrório mostrando o absurdo de oferecer qualquer que fosse a água sem ter ao menos um balde, continuou a falar de tudo como se nada pudesse ser apenas o que sempre foi. Parecia falar de nada que já antes ouvi, como se tudo pudesse ter outra versão.
E falava como se fosse maior que aquele que cavara o poço, Jacó, nosso pai.
Falava como se palavras cavassem poços e baldeassem saciedade.
Talvez um poeta deslumbrado.
Sendo assim, aceitei a proposta da água viva e entrei na brincadeira. Dei ainda um certo tom de seriedade: ‘apenas para não ter mais o trabalho de ir ao poço’. Um silêncio e de novo aquele olhar insano de quem vê através das coisas e engendra o surpreendente. Eu, que queria não voltar ao poço de água, fui convidada por ele a voltar à origem da minha sede. Mandou-me buscar o marido, esse tipo de gente que primeiro abandona a imaginação, para depois abandonar a esperança e o amor.
A brincadeira perdeu a graça. A guinada da água para o coração causou-me vertigens. Lacônica, disse-lhe não ter marido. E não é que sequer esboçou surpresa? Nem um tom escrupuloso. Sabia de todos os maridos que tive e daquele que me toca, mas não me abraça. Senti meu rosto como um livro que se desenrola diante de um leitor. Seria eu tão evidente? Ou ele, um leitor habilidoso de gestos e olhares? Quem?
Poeta, sim. Louco? Com certeza e daqueles que a gente, atordoada, chama de profeta.
Alguém com versões tão diferentes do que a vida toda ouvi. Que fala estranhamente de tudo, mas com tanta graça. Que transfigura o óbvio e enxerga o avesso do que sempre me enfadou. E, sem pá, explora profundidades e, sem balde, baldeia com as palavras novos sentidos e embebe a vida de significados vários. Alguém assim pode me falar de Deus também com surpresa. Salvou-me da culpa de não ser amada, quem sabe salvará o divino do meu tédio?
Fala de Deus, poeta. Baldeia também o divino de outro poço, profeta. Porque tal como esta água, o que de Deus eu sei me angustia mais que sacia. Os samaritanos falam de um que é mais Deus em nosso templo que naquele de Jerusalém. Deus é só isso? Dos judeus ou dos samaritanos? De Jerusalém ou de Gerisim? Do templo que não me quer, ou que não me cabe? Dos homens e suas vaidades másculas e truculentas? Reiventa, poeta. Redescreve, profeta.
Bem naquela hora, uma brisa boa refrescou nossos rostos e a conversa, já tão tensa e grave. Ele, por um instante, pareceu esperar pelo sopro como um cantor aguarda o acorde da harpa. Como um poeta espera a metáfora que libertará a imaginação. Chamou o divino de vento. Desse que sopra selvagem e solto no deserto; desejado, mas indômito. Para além de qualquer estrutura, imprevisível, tão livre que apenas os que também anseiam pela liberdade podem encontrá-lo. Disse que Deus é vento e procura por quem, ao adorá-lo, também vai além dos edifícios e suas rígidas estruturas, tal qual o indomável e inventivo vento, e só assim o encontra de verdade.
Porque a verdade nunca é o que já se disse, mas o que está por dizer.
A verdade nunca é o que a brisa já deixou desenhado na areia, mas o vento que sempre está por soprar e redesenhar o chão de nossa existência.
Então? Vocês não querem vir e ouvi-lo? Ele (re)contou tudo o que tenho feito. Acho que é o Messias. Certamente não o que esperávamos. Mas o Messias. E eu, nossa! Esqueci meu cântaro lá, de tão lembrada que estou de tudo o que ainda posso ser.
Elienai Cabral Junio